O trio_”Nosedive” do Black Mirror_George Orwell_Sistema de Crédito Social chinês

A popular série da Netflix – Black Mirror designa-se como uma “antologia de ficção científica que explora um distorcido futuro próximo onde as maiores inovações tecnológicas da humanidade colidem com os seus instintos mais sombrios” e de facto, a abordagem do episódio “Nosedive” parece reportar-nos a um futuro próximo, só que não! Afinal, o sistema das pontuações do primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror, em tudo toca o Sistema de Crédito Social Chinês.

Ilustração de Kevin Hong

Ilustração de Kevin Hong

Foi em 2014 que a China anunciou o desenvolvimento de um sistema de crédito social para funcionar como sistema de avaliação dos cidadãos, ao nível do seu comportamento social mas também económico. Neste momento, já se encontra em prática e dizem que com caráter experimental, sendo apenas utilizado sobre quem se voluntaria.

Neste sistema, conduta é mais importante do que dinheiro ou posses económicas, pois existem benefícios por ser um “cidadão exemplar” ou proibições/restrições de má conduta em coisas básicas, como viajar, por não pagar impostos ou ter uma multa. Este é o sistema implementado na vida de muitos chineses, e o resultado tem sido, no mínimo, controverso.

Com cheiro a Black Mirror, o sistema está a expandir-se por todo o território chinês, beneficiando quem tem mais crédito, adquirido por compras online, pagamento de dívidas ou boas atitudes — os players são vigiados por milhares de câmeras com reconhecimento facial espalhadas por todo o lado. É verdadeiramente assustador.

Os chineses com pouco crédito veem os seus empréstimos limitados, com proibição de frequência de algumas escolas/colégios e mesmo impedidos de assumir cargos públicos. Alguns cidadãos são ainda, impedidos de comprar bilhetes de comboio ou de autocarro.

O governo chinês justifica a existência do sistema como forma de melhorar o comportamento em sociedade, no entanto, o sistema de créditos, pode ser encarado como um uso abusivo dos direitos de privacidade e também como uma utilização distorcida, do enorme avanço da tecnologia. Para além das óbvias questões que se levantam quanto à proteção da privacidade dos cidadãos, não parece haver transparência sobre as regras que são impostas, nem tão pouco sobre como a forma de recuperar pontos perdidos. Acontece assim, um escalonamento de cidadãos bons e cidadãos maus, mas de forma perversa.

Ilustração de Kevin Hong

Ilustração de Kevin Hong

A avaliação das pontuações do sistema, é realizada com base em dados fornecidos por grandes empresas, serviços financeiros, companhias de seguros e outros. E o cidadão que se voluntaria para participar, é avaliado em cinco parâmetros:

  1. histórico de crédito;
  2. cumprimento de prazos;
  3. características individuais/pessoais;
  4. comportamentos;
  5. relacionamentos interpessoais.

Este controlo excessivo não reporta apenas ao “Nosedive” de Black Mirror, pois quem se recorda do escritor George Orwell (1903-1950) e do seu livro “1984”, na visão de um futuro totalitário, tem presente que esta obra de grande popularidade académica, ficou extremamente ligada à crítica dos governos totalitaristas que se disseminavam a época de sua criação, em 1949. O autor refere na obra, medidas adotadas nos governos totalitários que fomentaram a ascensão do Big Brother ao poder. E o que é este sistema, senão um Big Brother de escala assustadora e proporções desconhecidas?

O governo chinês, refere que o propósito do sistema é restringir os movimentos e operações daqueles que não são confiáveis, e isso já é um facto, quando durante o ano de 2017, cerca de seis milhões de pessoas foram excluídas da utilização de transportes públicos, restringindo-lhes totalmente a liberdade.

Vejamos.

O nível de controlo da população chinesa aumenta assustadoramente e com o seu consentimento. Numa espécie de “corrida ao pódio” de pontos, como likes e corações nas redes sociais, a população chinesa entrega-se inconsciente do perigo da perda de independência, liberdade e privacidade.

Quando os cinco parâmetros acima referidos podem ser avaliados e sancionados/premiados em conformidade, iremos ter coisas assustadoras:

  • responsabilidade sobre as atitudes sociais dos que nos estão mais próximos;
  • proibição de voto e ativismo político na premissa da conduta tida como correta;
  • impossibilidade de frequentar determinados lugares e de assumir profissionalmente alguns cargos;
  • proibição de viajar e deslocar-se;
  • impossibilidade de adquirir certos bens porque se tornam demasiados dispendiosos para pontuações fracas;
  • etcétera, etcétera, etcétera…

Seja Black Mirror, 1984 ou Sistema de Crédito Social Chinês, falamos exatamente do mesmo perigo. A questão é: Quanto demorará a passagem deste sistema para o ocidente?

Não sei. Espero que nunca!

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2 Comments

  1. Teresa Ribeiro
    4 Abril, 2019 / 7:18 pm

    É assustador o Big Brother da China!

    • miaprozac
      Autor
      4 Abril, 2019 / 7:26 pm

      Este sistema é um perigo, e com o engano de progressão de pontos, começam a controlar a população toda. É mesmo assustador!

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