As únicas cartas de amor que escrevi foram para os meus filhos. Não me lembro de alguma vez me ter sentado e sentido uma extrema urgência de escrever o que sinto. Nunca.
Eu sei. E todos sabemos que a sua altura estava perto. Nenhum de nós tem ilusões quanto ao prazo de validade da vida. Mas na realidade, ninguém está preparado. Eu não estava preparada.

Comandante Sousa Vieira
Queria tanto ter trocado só mais um olhar consigo! Repetir-lhe o que tantas vezes lhe disse. Dar-lhe um beijo na testa, dizer-lhe que está bonito, que está elegante e sobretudo que vai correr bem, que estará seguro e tranquilo.
Desde que se foi, vários são os momentos que não consigo respirar, parece que estou coberta por um saco de plástico que não me permite consumir oxigénio. Esta perda é uma agonia, porque o avô ensinou-me várias coisas, mas nunca me ensinou a perde-lo.
Não me apetece ouvir o lugar comum que estava na hora, que foi melhor assim ou que o avô era muito velhote. Não quero ouvir, avô!!! Não quero!
Mas nada do que eu quero conta já. Por isso, mesmo com este aperto no peito, tento lembrar-me de todas as suas histórias, de todos os seus traços.
Sempre foi mais um pai do que um avô para mim. Não é por acaso, que lhe dava uma prenda no Dia do Pai ou lhe ligava para saber como estava a desejar-lhe um dia feliz. E o avô ficava tão contente, eu sei.
Lembra-se de eu ter aprendido a nadar na sua piscina? Não há dia que passe por ela e não me lembre de percorrer aquele rebordo incansavelmente consigo por perto…
Lembro-me tão bem de ser o seu caddy de estimação, de levar o seu carrinho, dar-lhe os tacos e apanhar as bolas que iam para meio do mato. Mas também tenho de confessar, e isto nunca lho disse, apesar da sua paixão pelo golf, o avô não tinha jeito nenhum para aquilo. O avô sabia disso, não sabia?! É que eu apanhava muitas bolas. Mesmo! Os nossos almoços com o Sarga Leal eram compensatórios e o avô sempre me pagou uns tostões por cada bola, mas eu percebia avô. Mesmo pequena e sem entender nada de golf, eu percebia. Mas esta fica entre nós, Comandante.
Lembro-me de me ter oferecido o meu primeiro carro – verde alga – como lhe chamava.
Lembro-me de me ter acolhido em sua casa, no seu atelier quando cheguei a Lisboa com vinte anos e a minha vida toda enfiada num Fiat.
Lembro-me tão bem de ter almoçado consigo em Birre, no Centro Comercial que não sei se ainda existe, e de lhe ter contado que estava grávida da Carlota. Comemos bacalhau à brás e eu estava tão nervosa por lhe contar que o ovo me caiu mal e fiquei maldisposta a tarde toda. Como sempre, apoiou-me.
O meu primeiro casamento na sua casa e sempre meu padrinho, avô. Só podia ser. Mas e agora, se resolvo casar-me novamente? Dizem que à terceira é de vez e não o tenho aqui para me levar…
Sempre gostei que me confiasse as suas aventuras e desventuras, que foram tantas e tão bem vividas. Tenho muito orgulho em si. Um extremo orgulho em si.
Para mim, é um verdadeiro herói, pela forma como lutou pelas coisas na sua vida e de como a construiu em circunstâncias nada fáceis.
E é engraçado, que rodeado por tudo o que idealizou, o avô em nada tinha a ver com o pedantismo do sítio onde vive. Isso, eu admirava muito em si. Num local onde todos se julgam uma grande coisa e grande parte não tem onde cair morto, o avô sempre se manteve fiel a si próprio. Simples, elegante, mas sobretudo muito educado e acessível.
O avô era um Senhor. Há poucos. Muito poucos.
Mas devo dizer-lhe, que conversas de que no tempo do Salazar é que era bom, só admito a duas pessoas, a si e à avó. Por isso avô, o meu tempo de silêncio para com o engrandecimento da ditadura está quase a acabar. O que é menos mal…
Sabe do que me lembro também? De lhe dedicar a minha tese. E sei que a guarda orgulhosamente na mesa central da sala.
Na verdade, tudo o que sou hoje tem o seu contributo. Esta é a mais pura das verdades. E é assim que deve ser.
Sei que não lhe confiei algumas coisas mais recentes, mas não o queria preocupar. Por isso, quanto me perguntava por todos, eu inventava histórias para não o apoquentar. Peço-lhe desculpa, porque agora sinto que lho devia ter contado. Mas não podia permitir que tivesse mais preocupações.
Tentarei estar à sua altura. Estar à altura do nome que me entregou e mando-lhe um beijo dos seus bisnetos, que como sabe, têm o maior orgulho em si.
Até já, Comandante.
Um texto portentoso, transbordante de vida e de sentimento, seguramente a melhor homenagem que um avô alguma vez poderia receber.
Fez-me recordar aquele pensamento passado à eternidade pela inspiração de não sei quem: “Os avós nunca morrem, tornam-se invisíveis e dormem para sempre nas profundezas do nosso coração”.
Parabéns pela neta que tem, Comandante!
Autor
❤️