fbpx

A Fotografia analítica _com Vitorino Coragem

Este artigo exigiu uma enorme reflexão sobre o conceito de exposição. Não uma qualquer exposição. Mas aquela que se refere ao corpo, ao invólucro, ao envelope, ao privado e ao íntimo. E não existe nada mais íntimo do que a aura que vive na membrana que nos envolve, porque essa não é controlável. Pelo menos, não por alguém com olhar clínico e cru de observador nato.

Essa aura é-nos totalmente sequestrada num mágico fragmento de quem domina a arte de captar a essência de um momento. E Vitorino Coragem domina exatamente isso. A alma. O esqueleto.

Vitorino Coragem

Auto-retrato. Vitorino Coragem

Foi a necessidade de expurgar um momento específico no espaço/tempo, que surge Vitorino Coragem. Conhecia o seu trabalho e impressionava-me genuinamente a perceção realista que sinto através da sua visão como fotógrafo.

Poderia relatar todo o percurso do Vitorino e debitar tantas e variadas informações que podemos encontrar em inúmeros artigos e entrevistas ao fotógrafo e jornalista. Mas esta não é de todo a intenção. Ao invés, a pretensão é estabelecer uma referência distinta, numa perspetiva intimista, crua mas também analítica e crítica.

Sabemos que pela lente de Vitorino Coragem, se cruzam várias personalidades e eventos relevantes. Mas pessoalmente, é o seu trabalho de cariz mais autoral ou de assinatura, que me envolve emocionalmente enquanto observadora. E por essa razão, o fotógrafo ideal para propor um trabalho deste tipo.

Refletir sobre o sentimento de ser fotografado, registado e exposto, é à partida, absolutamente assustador. Mas essa era exatamente a intenção. Nada a ver com registo de ego ou exposição. Exatamente o contrário. Propor a alguém de olhar cirúrgico, que registe quem tu és. Numa perspetiva, que possivelmente, tu próprio desconheces.

Esse era o desafio. Sem filtros. Sem cenário. Sem preconceitos ou narrativas.

Estas foram as premissas. Um trabalho livre, de autor, e que através de imagem escrevesse uma história – luminosa ou noir, não importa. Mas que apenas o resultado final poderia testemunhar como qualquer redação.

A intenção nunca foi divulgar ou difundir, mas obter um registo em espécie de manifesto ou testemunho e obrigasse ao reconhecimento de quem és e onde estás. Vitorino Coragem concordou e o seu olhar clínico era o ingrediente essencial.

Pontualidade britânica em plena Lisboa, subimos ao estúdio. Descontraído, caloroso e empático, conversamos novamente sobre a intenção deste pequeno projeto – escrever sobre o sentimento de ser fotografado e registar um determinado momento, imperativo de documentar.

Num diálogo fluído e agradável, o Vitorino dá algumas instruções, explicando entre outros pormenores, que irá fotografar muito, conversaremos, e que o encontro com a naturalidade surgirá no decorrer da sessão.

Uma enorme tensão inicial que o Vitorino descortina desde logo, mas o curioso, é que à medida que nos envolvemos no momento e na fluidez da naturalidade – que eventualmente chega – surge uma sensação estranha, como se estivessemos a lidar com o nosso reflexo, numa espécie de dimensão paralela, em que um espelho força a uma introspeção. Irrefletida e involuntária mas assumidamente sedutora.

Presente também o forte sentimento de confronto, numa estranha forma de confissão – não só na relação com o fotógrafo, mas sobretudo connosco. Pelo menos, esta é a perceção de alguém assumidamente laica e totalmente desprovida de intenção em relacionar fotografia com qualquer traço de religiosidade. Mas a natureza desta exposição, revelou-se como uma interessantíssima forma de catarse.

Compreendi que o trabalho de fotógrafo é árduo, pois atingir a naturalidade da pessoa fotografada leva muito tempo, profissionalismo, mas sobretudo arte na relação com o outro. E sobre este aspeto, pareceu-me natural descobrir que a sua base de formação é de Sociologia – o que não deixa de ser uma ligação bastante curiosa. A arte de capturar a figura humana enquanto ser social e não enquanto enquadramento figurante de um qualquer cenário.

Admito que o confronto, para quem não está habituado a ser fotografado, é duríssimo. Senti esta exposição como brutal. Um verdadeiro raio-x à alma, sem perdão ou condescendência. Pelo menos neste desejo de compreender referências/sentimentos com intenção marcadamente conceptual e analítica.

Curioso que não sendo um registo casual, surge o estranho sentimento em corresponder à expectativa duma lente orquestrada por um fotógrafo. A exigência e a pressão de expressar o espectável ser/estar. Mas a lente não perdoa, não mascara, dá-nos exatamente a sua maior riqueza – a verdade.

Uma experiência muito interessante a que não estamos habituados, talvez porque associemos uma sessão fotográfica a pessoas públicas, eventos ou registos formais. Mas são momentos individualmente enriquecedores, sobretudo como apontamento autoral, como exercício expositivo e registo de uma história contada por imagens.

Obrigatório conhecer o trabalho deste talentoso fotógrafo.

Vejam em www.vcoragem.com

Enjoy.

 

 

 

 

Seguir:

Diz o que te der na gana. É gratuito.